O Amor (Gonçalves Dias)
Amor! Enlevo d’alma, arroubo, encanto Desta existência mísera, onde existes? Fino sentir ou mágico transporte, (O quer que seja que nos leva a extremos, Aos quais não basta a natureza humana;) Simpática atração d’almas sinceras Que unidas pelo amor, no amor se apuram, Por quem suspiro, serás nome apenas? A inútil chama ressecou meus lábios, [...]
Se te amo, não sei (Gonçalves Dias)
Amar! se te amo, não sei. Oiço aí pronunciar Essa palavra de modo Que não sei o que é amar. Se amar é sonhar contigo, Se é pensar, velando, em ti, Se é ter-te n’alma presente Todo esquecido de mim! Se é cobiçar-te, querer-te Como uma bênção dos céus A ti somente na terra Como [...]
A Mendiga (Gonçalves Dias)
Donnez: – Et quand vous paraîtrez devant juge austère Vous direz: J’ai connu la pitié sur la terre, Je puis la demander aux cieux! – Turquety I Eu sonhei durante a noite… Que triste foi meu sonhar! Era uma noite medonha, Sem estrelas, sem luar. E ao través do manto escuro Das trevas, meus olhos [...]
A Leviana (Gonçalves Dias)
Souvent femme varie, Bien fol est qui s’y fie. – Francisco I És engraçada e formosa Como a rosa, Como a rosa em mês d’Abril; És como a nuvem doirada Deslizada, Deslizada em céus d’anil. Tu és vária e melindrosa, Qual formosa Borboleta num jardim, Que as flores todas afaga, E divaga Em devaneio sem [...]
A Concha e a Virgem (Gonçalves Dias)
Linda concha que passava, Boiando por sobre o mar, Junto a uma rocha, onde estava Triste donzela a pensar, Perguntou-lhe: — “Virgem bela, Que fazes no teu cismar?” — “E tu”, pergunta a donzela, “Que fazes no teu vagar?” Responde a concha: — “Formada Por estas águas do mar, Sou pelas águas levada, Nem sei [...]
A Escrava (Gonçalves Dias)
Gonçalves Dias O bien qu’aucun bien ne peut rendre! Patrie! doux nom que l’exil fait comprendre! – Marino Faliero Oh! doce país de Congo Doces terras d’além-mar! Oh! dias de sol formoso! Oh! noites d’almo luar! Desertos de branca areia De vasta, imensa extensão, Onde livre corre a mente, Livre bate o coração! Onde a [...]
Idílio (Antero de Quental)
IDÍLIO Quando nós vamos ambos, de mãos dadas, Colher nos vales lírios e boninas, E galgamos dum fôlego as colinas Dos rocios da noite inda orvalhadas. Ou, vendo o mar das ermas cumeadas Contemplamos as nuvens vespertinas, Que parecem fantásticas ruínas Ao longo, no horizonte, amontoadas: Quantas vezes, de súbito, emudeces! Não sei que luz [...]
Velhas Árvores (Olavo Bilac)
VELHAS ÁRVORES Olha estas velhas árvores, mais belas Do que as árvores novas, mais amigas: Tanto mais belas quanto mais antigas, Vencedoras da idade e das procelas… O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas Vivem, livres de fomes e fadigas; E em seus galhos abrigam-se as cantigas E os amores das aves [...]
Ouvir Estrelas (Olavo Bilac)
OUVIR ESTRELAS “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, Que para ouví-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto… E conversamos toda a noite, enquanto A Via Láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro [...]
Maldição (Olavo Bilac)
MALDIÇÃO Se por vinte anos, nesta furna escura, Deixei dormir a minha maldição, – Hoje, velha e cansada da amargura, Minha alma se abrirá como um vulcão. E, em torrentes de cólera e loucura, Sobre a tua cabeça ferverão Vinte anos de silêncio e de tortura, Vinte anos de agonia e solidão… Maldita sejas pelo [...]
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