A cobra está fumando… Senta a Pua!
por Oriza Martins |
O inverno europeu de 1944-1945 apresentava-se particularmente rigoroso, especialmente na região italiana da Cordilheira dos Apeninos, onde combatentes alemães e Aliados sofriam com o rigor das nevascas, que obrigaram ambos os lados a diminuir o ritmo das operações bélicas.
Em meio às temperaturas que chegavam a vinte graus abaixo de zero, destacava-se uma legião eclética de heróis – negros, louros, morenos –, participantes de um exército oriundo dos calientes trópicos da América do Sul.
Tinham como símbolo, estampado na manga de seus uniformes, o curioso e divertido desenho de uma cobra… fumando!
Seu slogan: “a cobra está fumando…”
Eram os pracinhas brasileiros. Compunham a FEB – Força Expedicionária Brasileira.
Pertenciam às tropas de terra, que contavam com o apoio da FAB – Força Aérea Brasileira, cujos integrantes tinham por grito de guerra uma expressão não menos divertida e otimista:
– “Senta a pua!”
As primeiras baixas sofridas pelo Brasil remontavam a seis meses antes de sua entrada oficial na guerra, entre fevereiro e setembro de 1942, quando submarinos alemães torpedearam covardemente navios mercantes brasileiros, na tentativa de impedir o intercâmbio comercial com os países Aliados, sacrificando milhares de vidas indefesas.
Declarada guerra ao Eixo, a adesão do Brasil aos Aliados tornou-se importante na medida em que o país contribuía com o fornecimento de matérias-primas e produtos essenciais à economia de guerra dos países aliados e transformava o litoral nordestino em extensa base de operações, sendo um ponto estratégico por sua localização em relação ao norte da África. Além disso, o governo brasileiro prontificou-se a enviar uma força expedicionária à Europa para cooperar também no campo de batalha com a causa aliada.
Em 1943, foi nomeado comandante o General-de-Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, incorporando-se a Força Expedicionária Brasileira ao 5o Exército Norte-americano, na Itália, subordinado ao General Mark Clark.
Vencidas as dificuldades relativas ao treinamento dos recrutas, desde aspectos materiais, bélicos e instrucionais, adaptação aos regulamentos norte-americanos, até motivos de ordem psicológica – tendo em vista a propaganda nazi-fascista no Brasil, acobertada pelos agentes e espiões conhecidos no País como quinta-coluna –, embarcaram os primeiros contingentes com destino ao porto de Nápoles, em julho de 1944, seguindo-se outros cinco, até fevereiro de 1945, totalizando mais de 25.000 combatentes, com o apoio de um esquadrão de caças P-38, da Força Aérea Brasileira.
As primeiras missões brasileiras, entre setembro e dezembro de 1944, lograram êxitos com relativa facilidade, sendo as forças deslocadas no final do ano para a rica planície do Rio Pó, quando, então, experimentaram as verdadeiras durezas da guerra.
Incumbidos do ataque a Monte Castelo-Belvedere, – uma fortaleza natural fortemente guardada pelos alemães –, sem uma preparação adequada para a luta em terreno escarpado, os pracinhas sofreram duas tentativas fracassadas, em dezembro de 1944, tornando-se a missão uma questão de honra para os combatentes brasileiros.
Muitas vidas foram ceifadas nessas incursões. Cadáveres de pracinhas eram recolhidos por seus compatriotas, consternados. Alguns corpos permaneceram ocultos, congelados sob a neve que se fazia constante naquele inverno italiano de 1945, aguardando para se revelarem apenas meses mais tarde, sob o degelo da primavera… Aqueles corpos insepultos, testemunhas macabras das insanidades da guerra, ironicamente estariam entre os últimos heróis a deixar o campo de batalha…
A inevitável trégua estabelecida pelo rigoroso inverno possibilitou aos soldados da Força Expedicionária Brasileira repouso e adestramento necessários para vencerem as dificuldades, mostrando sua alta capacidade de adaptação às situações difíceis. Tornaram-se exímios esquiadores e excelentes patrulheiros, encarando com habilidade as geladas encostas dos Apeninos.
Havia dificuldades de toda ordem A começar pela alimentação. O kit alimentar era fornecido pelo governo norte-americano, fora dos padrões brasileiros. Os soldados sentiam falta de arroz com feijão e farinha. Mas havia tudo em abundância, não se pode negar. Alimento, roupas, cigarros. Os cigarros eram especialmente preciosos.
Conforme dizia um dos oficiais brasileiros sobre Brasil e Itália:
- São dois povos que têm muita afinidade. Primeiro, porque éramos confundidos com alemães e francamente hostilizados. Depois, em certas regiões, os alemães, ao perceberem o avanço das tropas brasileiras, espalharam cartazes grotescos, propagandeando que brasileiros devoravam crianças… Os cartazes mostravam a figura caricata de um brasileiro fardado, com enormes dentes, abocanhando uma criancinha. Isso foi um ato de terrorismo muito sujo, para colocar a população contra os pracinhas. Mas nada suplanta o espírito e a criatividade dos brasileiros. Eles superam qualquer adversidade. No frio, procuravam manter-se secos e quentes, nos seus abrigos e foxholes[1]. Forravam as galochas com feno, panos, jornais… Tinham facilidade até para namorar as italianas…
Vencido o clima, o terreno e dificuldades operacionais, um inimigo implacável aguardava o pracinha brasileiro: o determinado combatente alemão.
Finalmente, a 21 de fevereiro de 1945, iniciava-se um fulminante ataque da Força Expedicionária Brasileira a Monte Castelo, sob o comando de Zenóbio da Costa. Após 24 horas de intensa batalha, era quebrada a resistência alemã na região, abrindo caminho para novas vitórias dos pracinhas: Belvedere-Gorcolesco, Castelnuovo, Montese, Zocca.
Por volta das cinco horas da tarde, a bandeira verde-amarela era hasteada no alto do Monte Castelo, fato que veio revigorar os brios dos pracinhas brasileiros.
[1] Foxhole: buraco no chão, onde o soldado se abrigava, procurando em geral, proteger-se com tábuas, troncos, panos, etc.
